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Crónica de Ana Costa: É bom sonhar

(Fotografia: DR)

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Já aqui falei do meu apreço pelas viagens de comboio. Não tinha ainda mencionado a facilidade com que, verificando-se as condições ideais, adormeço num instante com a testa encostada à janela. Basta o apoio e o conforto de um raio de sol a aquecer-me a face, a juntar ao embalo da carruagem sobre os carris, para me chegar a dormência. Há dias, numa dessas viagens do Porto para Guimarães, aconteceu isso mesmo. Quando acordei, meia dúzia de paragens antes do destino, tinha o que deduzi ser um professor primário a fazer um teste ou uma ficha de atividades, desenvolvendo perguntas com base num livro infantil. Tenho de me desculpar pela abelhudice, mas a curiosidade corre no sangue desta jornalista – para não atribuir a característica a toda a classe – e não me contive em deitar um olhar às folhas de linhas com as pontas amarfanhadas que instantaneamente me transportaram para a sala da professora Manuela, na escola primária de Lemenhe.

Entre perguntas sobre a história e exercícios gramaticais, senti alguma vergonha, admito, quando demorei mais do que considerei aceitável a lembrar-me do antónimo de sonho. Na verdade acho que fiquei só fixada nessa palavra tão bela, e no mundo de possibilidades que abre.

Tenho para mim que sonhar é das coisas mais fascinantes que a mente humana consegue fazer.

Fora do seio familiar, acredito que os professores primários são pioneiros a fazer nascer sonhos nas crianças. Lembro-me que há 20 anos queria muito ser professora de matemática. Foi a primeira profissão que idealizei ter quando “fosse grande”. Mais tarde descobri realmente o que era a matemática e acabei no campo das letras. Sonho também pode ser sinónimo de ilusão, não é verdade?

Tenho para mim que sonhar é das coisas mais fascinantes que a mente humana consegue fazer. Jamais alguém consegue privar-nos de sonhar. Sejam as imagens que o nosso subconsciente exibe durante o sono, ou os planos e projetos que idealizamos para a vida, as ambições e os desejos. Mesmo num mundo tão cético como o que vivemos, continuo a acreditar que os sonhos são a centelha que o faz mover. E o mistério em redor deles torna tudo ainda mais sedutor. Freud diz que a atividade onírica é guiada pelos mais variados sentimentos escondidos no íntimo da nossa consciência. A nossa mente tem o poder de pegar em fragmentos de memórias que acumulamos ao longo da nossa vida e transformá-las num enredo digno de um Oscar, que evoca o real e o imaginário.

Sonhar, de olhos abertos ou fechados, pode ser uma forma de lidar com o quotidiano ou de fugir da realidade, quando esta nos traz sofrimento. Era o que fazia Zezé, com as suas aventuras imaginadas, os seus sonhos e desejos, que revelava apenas a um confidente, o pé de laranja lima a que chamava Xururuca. Esta obra de José Mauro de Vasconcelos foi o livro que mais marcou a minha infância. Talvez por isso goste tanto de sonhar.