Já ouvimos e lemos esta ideia fraseada de várias outras formas, com um sentido literal ou mais poético, em que a viagem é metáfora da própria vida, e a sabedoria alheia diz-nos que devemos viver o presente e não ficar à espera do futuro. O título desta crónica, uma citação do romancista britânico Michael Frayn – por sua vez reformulando Mcluhan -, tirei-o da abertura d’O Grande Bazar Ferroviário, de Paul Theroux. “Se um comboio for grande e confortável nem sequer é preciso um destino; basta um lugar de canto para se poder ser um daqueles viajantes que ficam em movimento, escarranchados em cima dos carris, e nunca chegam nem acham necessidade disso”, escrevia o autor nas primeiras páginas daquele diário de viagem desfiado sobre os caminhos de ferro que ligam a Europa à Ásia, fazendo-me recordar como é bom viajar de comboio. Lá dentro o tempo é nosso, e não precisamos fazer mais nada a não ser estar.
Aprendi a apreciar a leveza de andar de comboio quando fui estudar para o Porto e as viagens sobre carris passaram a fazer parte do meu quotidiano. Cheguei a achar o tempo que passava entre destinos um desperdício, frustrada por não conseguir chegar a casa mais cedo ou por não poder prolongar o embrulho nos lençóis de manhã. Mas apercebi-me que aquelas quase duas horas de trajeto eram um bálsamo de despreocupação, um hiato bem-vindo entre a vida profissional e a pessoal, um espaço limpo na agenda. Durante cinco anos foi o meu meio de transporte diário e aprendi a saborear aquela viagem por si só.
Os comboios são lugares extraordinários. Quem os frequenta assiduamente começa a identificar caras familiares e a tecer as suas possíveis histórias, sem as conhecer. Um dia, dois estranhos acabam sentados em frente um do outro, e um cumprimento, a capa de um livro, um comentário sobre o tempo dá pretexto a uma conversa e meros passageiros acabam companheiros de viagem.
Há um ano e meio essa minha rotina mudou. Conto agora pelos dedos das mãos as vezes em que ando de comboio e a experiência é ligeiramente diferente. As caras estão semi-cobertas e, havendo possibilidade, procura-se evitar os lugares lado a lado. Mas volto, de cada vez, a ter a mesma sensação de tranquilidade: enquanto ali estiver não há nada que eu possa fazer para chegar mais depressa ao meu destino e há algo de reconfortante nesse desprendimento.
Theroux fez-me recordar como é bom viajar de comboio – seja a bordo de um urbano do Porto ou num dos míticos percursos do Expresso do Oriente e do Transiberiano, que entretanto entraram para a lista de desejos -, essa cápsula de tempo a deslizar entre paisagens que se desenrolam como um filme à janela. Ter por objetivo simplesmente apreciar o caminho, talvez conhecer outros passageiros e quem sabe até fazer companheiros de viagem. Ora aí está uma metáfora para a vida.