Fica no Paço da Rainha, ao Campo dos Mártires da Pátria, este templo fundado e assinado pelo chef Belmiro Jesus. Com a Paula, sua mulher, faz uma das mais brilhantes duplas da restauração nacional. Acompanho o percurso de Belmiro desde os imemoriais tempos do 5 do 10, na Avenida 5 de Outubro, onde oficiava ainda como empregado de mesa. Quando era preciso, ia para a cozinha e produzia pratos perfeitos. Tinha o cozinheiro dentro de si a manifestar-se de forma telúrica, a ponto de assumir e iniciar uma das mais prodigiosas carreiras de sempre em Portugal. Tem costados transmontanos do Fiolhoso mas a cozinha que se habituou a produzir é alentejana e é um dos seus grandes executantes.
Quem vai ao Belmiro com o sentido do petisco não sai defraudado. Há favinhas de coentrada de bom equilíbrio entre azeite e vinagre, como não se fazem em parte alguma. Ajudam à festa as finas fatias que o chef Belmiro extrai de um presunto pata negra Maldonado que está sempre a serviço. As empadinhas de frango são um clássico da casa e come-se logo duas ou três. Os ovos Belmiro configuram tentação e o nome diz tudo; são inimitáveis, de simples que são e pela emoção de que batata e ovo são capazes. E a sopa de tomate com garoupa e ovo escalfado é de tal aprumo que vamos às lágrimas desde a primeira colher até ao fim.

(Fotografia: DR)
Os sames de bacalhau têm tratamento VIP neste restaurante. As bexigas-natatórias do fiel amigo são marinadas e cozinhadas a baixa temperatura, para reter o máximo de colagénio possível. Animam por isso o prato caldoso com que nessa noite vamos sonhar e no dia seguinte sentimos a necessidade absoluta de voltar a ele. Há filetes de peixe-galo com arroz de tomate de grande talante. O polvo grelhado com batata a murro que aqui se processa é sinal de que os deuses do Olimpo estão aí. E o bacalhau confitado com grão é de perder a cabeça.
Nas carnes a perdição não é menor. Destaco por exemplo o Bife Belmiro, que o nosso herói faz desde os tais tempos imemoriais. Há mãozinhas de vitela em fricassé com grão que nos põem a pensar na vida e pezinhos de porco de coentrada que nos obrigam a rever o conhecimento. E são indispensáveis os lombinhos de porco com molho de coentros.
Termine a refeição com uma de três sobremesas: a calórica e sápida encharcada de ovos; a genial tarte de requeijão; ou o simples bolo de laranja. E não tenha pressa de partir porque do Belmiro nunca verdadeiramente se sai.

(Fotografia: DR)
Belmiro
Paço da Rainha, 66, Lisboa
Tel. 218 852 752
Web: instagram. com/belmirorestaurante
Das 12h às 24h, de segunda a sábado
Preço médio: 30 euros
