Uma espécie de sina traçada na palma da mão percorre as várias gerações que já passaram pela gerência da Casa do Pão-de-Ló de Alfeizerão: só as mulheres conseguem escrever esta história com sucesso, contando que nenhuma delas deixa descendência. “Foi sempre assim. E de cada vez que algum homem pegou no negócio, não correu bem”. Helena Monteiro de Castro desfia as contas desse rosário, a dois anos de comemorar o centenário daquela mítica confeitaria, que herdou a receita passada aos habitantes da terra pelas freiras do Mosteiro de Santa Maria de Coz, aquando da perseguição às ordens religiosas. Mas terá sido a visão de D. Adília – irmã do padre João Matos Vieira, vindo do Alentejo – que despoletou o sucesso desta iguaria. Foi ela quem abriu a venda, à beira da antiga estrada nacional, e mandou vir duas sobrinhas, Ema e Elisa (esta última ainda viva) para fazer prosperar o negócio, nos anos 40 do século passado.
Este é um pão-de-ló húmido, que à primeira vista parece ser feito de creme no interior. Ledo engano: “é o mais básico bolo, que todos aprendemos a fazer, com apenas três ingredientes: ovos, açúcar e farinha. Costumo dizer que tem três segredos, como Fátima. O primeiro é bater muito bem os ovos com o açúcar; o segundo é ter o forno bem quente e dar-lhe pouco tempo de cozedura. E o terceiro não posso dar, porque são as mãos da nossa pasteleira, Sílvia, que aqui está há mais de um quarto de século”, conta Helena de Castro.

(Fotografia de Nuno Brites/GI)

(Fotografia de Nuno Brites/GI)
Aquela sempre foi “uma casa de passantes”, por via da localização. Mantém toda a traça original, incluindo a réplica do mobiliário idealizado pelos Móveis Serrano, de Caldas da Rainha. Nas paredes, centenas de azulejos da aveirense Aleluia reproduzem a faina do mar, ali tão perto, de São Martinho do Porto à Nazaré. E para completar a viagem no tempo, um velho expositor Heller, com os largos frascos de vidro para drops e caramelos. O resto conta-se em fotografias de outros tempos, expostas no salão de chá.
Suspiros às claras
Durante muitos anos ninguém soube o que fazer com tantas claras que sobravam, já que o pão-de-ló guarda apenas as gemas dos ovos. Há décadas que a Casa de Alfeizerão começou a aplicá-las em suspiros. Mas foi já no tempo de Helena (uma professora de Filosofia que conheceu a vila e o bolo dela pela via do casamento) que chegou a diversificação. Atualmente fazem-se ali suspiros de todas as cores e tamanhos, que ajudam a escrever um novo capítulo nesta história.

(Fotografia de Nuno Brites/GI)
Algo está a fazer com que o sistema não consiga mostrar a ficha ténica desejada. Pedimos desculpa pelo incómodo.
