Estás a ver ali aquela porta ao fundo? É atrás dela que tudo acontece.” Estávamos na sala principal do restaurante A Parreirinha, numa rua tranquila de Miranda do Corvo, e a dita porta era ao fundo da outra sala, maior. A nossa era curta, o espaço da velha ramada gerada pela videira que se entorta atrás do balcão, grossa e sem vida, e se enfia no teto. Cobrir o lugar ditou a morte da ramagem, que não aguentou a prisão de um teto.
É dali que vem o nome do sítio, da pequena parreira que dava uvas e sombra aos comensais que procuravam a arte de Ofélia Preciosa de Oliveira, estabelecida na Rua Doutor Rosa Falcão desde 1985. Conhecida e respeitada, não fosse o portento de buço que ostentava orgulhosa, preferindo apará-lo com ciência a rapá-lo rente, Ofélia Preciosa ilumina em retrato uma das paredes junto à videira. E é a desculpa para dar duas de letras, já a chanfana estava no bucho de uns, o sarrabulho à moda daqui no de outros.
Apontamos à porta atrás da qual tudo acontece e desviamos Fausto Marques Lourenço dos afazeres de fim de um almoço lotado. Tanto que quando telefonámos a perguntar por mesa atenderam e pousaram o telefone sem dizer água vai, devia ser sinal, fomos e ainda bem.
É ali, do lado de lá da parede, que o forno a lenha faz magia todos os dias, ele a um canto, orgulhoso, os pipos do vinho tinto da terra a emoldurá-lo, a dar-lhe companhia, mais a pasteleira antiga que segura luzes de Natal no guiador e descansa os pneus junto a um rádio de antanho, como de antanho é aquele gira-discos pousado de esguelha sobre dois dos pipos. Nada é geométrico ou sequer pensado. É pousado, como o tempo que passa naquela divisão.
O vinho tinto, está bom de ver, é quase todo para a cabra velha, que é por ela que ali vamos, dizem-nos, “olha, chanfana é n’A Parreirinha em Miranda” e nós, bem mandados, seguimos o cheiro. Para que conste desde já: é das melhores que recordamos. Será do forno, do vinho da terra, do carinho de Fausto, dono do lugar há 30 anos, e de Dona Palmira, a mulher que faz magia na cozinha vai desde a mesma altura, será da alma de Ofélia, que um nome bonito assim só pode dar frutos.
- Chanfana no forno a lenha (DR)
- (DR)
São pelo menos umas cinco horas no forno para a cabra velha, quase tantas como as horas que Adosinda, a mãe de Fausto, levava da Alge que a viu nascer à feira semanal de Miranda do Corvo, um caminho tão longo que lhe pôs Fausto pai nos braços, um janota barbeiro que arrastou a paixão para Vila Nova, ali à entrada da serra, mas isso pouco tem a ver com chanfana, o que ela comprava mais era sardinha fresca.
Passadas as cinco horas, os alguidares de barro passam para a mesa comprida, cobertos de alumínio, para descansar do calor. E ali ficam, se puder ser, 24 horas, porque aí é que a chanfana fica boa. E isso significa estar tomada dos temperos, daquele vinho escuro, e desfiar-se como se fosse seda. Irrepreensivelmente saborosa, a pedir reposição, uma e duas vezes.
Mas se a chanfana é a heroína da Parreirinha, para lá da Ofélia que inventou o lugar, tem sério concorrente no sarrabulho, que não tem total semelhança com o do Minho, a começar pelo facto de só levar porco e não vir numa calda de arroz com aroma a cominhos. Aqui é mais batata, no caso frita, como toda a carne (fêveras, fígado e redenho) e o sangue depois de cozido. Imperdível, como imperdível é a bonomia de Carina, a funcionária de há tantos anos.
Menu do Dia: 14 euros (pão, azeitonas, prato, sobremesa, vinho e café)
Especialidades: chanfana, sarrabulho, negalhos
Sobremesas: arroz-doce, bolo de bolacha
