Quando ouviu falar em quinoa pela primeira vez?
Estávamos em 2013 quando a FAO (organização das Nações Unidas para a agricultura e alimentação) declarou o Ano Internacional da Quinoa. Eu, trabalhando no setor agrícola, e um amigo de longa data (Carlos Conceição) nunca tínhamos ouvido falar do pseudocereal. Começámos a investigar, acabámos por comprar sementes a um americano, em França, e testámos a planta na Covilhã, em 2014. A quinoa nasceu e produziu; no entanto a colheita não tinha interesse comercial. Ainda tínhamos muito a aprender, a nível de técnicas, como semear, colher…
Como chegam à fase da comercialização e à marca Quinoa Portuguesa?
Juntaram-se dois amigos de Barcelos ao projeto (os atuais sócios Filipe Figueiredo e Filipe Carvalho), também ligados ao setor agrícola. Dispunham de mais condições, nomeadamente um terreno, para a condução da cultura. Fizemos várias tentativas de produção, em diferentes alturas do ano e com várias técnicas de sementeira. Em 2016, conseguimos produzir cerca de seis toneladas. Hoje, estamos em várias lojas, vendemos diretamente ao consumidor e fornecemos restaurantes e padarias.
Quais as diferenças da Quinoa Portuguesa?
É um produto 100% natural não adulterado, não contendo qualquer processo extra que adultere o produto original. Não utilizamos pesticidas. A nossa quinoa é produzida de maneira natural, com recurso mínimo a maquinaria. O controlo da vegetação espontânea e invasora é feita manualmente. Mesmo no combate a pragas, optamos por utilizar auxiliares, insetos que se alimentam das pragas da cultura, como joaninhas. Na última colheita, plantada em 2017, colhemos 8 toneladas, sendo alguma produção certificada biológica. Essa colheita deverá entrar no mercado daqui a 3 meses.
E em relação a características do produto?
A quinoa tem naturalmente uma película protectora à superfície, a saponina, utilizada pelas plantas para se protegerem dos insectos. No entanto, tal confere-lhe um sabor amargo. Achamos que muitas pessoas não consomem quinoa por não a terem preparado bem e ter resultado num sabor amargo. Para o reduzir, usamos um processo de esmerilamento do grão, meramente mecânico, que não altera as suas características. Para além disso, a quinoa importada disponível no mercado utiliza nos seus rótulos uma composição nutricional genérica, usada por todos. Nós optámos por fazer as análises nutricionais específicas para a nossa e verificámos que tem um teor ligeiramente superior de proteína e uma percentagem mais baixa de gordura e açúcares.
É difícil produzir quinoa em Portugal? Não temos a altitude dos Andes.
A espécie adapta-se ao local. Produzir em altitude tem outros perigos, doenças e insetos que podem influenciar a colheita e o desenvolvimento da planta. As principais dificuldades prendem-se com a falta de informação de como produzir a cultura corretamente e sobre o enquadramento legislativo e normativo da cultura em Portugal.
É difícil competir com outros cereais, como o arroz, devido ao preço?
Não pretendemos competir com outros alimentos, nomeadamente os cereais. Acreditamos que a quinoa deverá contribuir para uma alimentação saudável e equilibrada. Nunca poderá substituir o arroz, dado que este é um alimento rico em hidratos de carbono e pobre e proteínas, ao contrário da quinoa que é um alimento rico em proteínas e pobre em hidratos de carbono. São alimentos diferentes e dessa mesma forma os preços são também diferentes.
Que benefícios tem a quinoa?
É um superalimento e isso deve-se ao facto das suas características em termos da composição de macronutrientes e micronutrientes serem muito boas e equilibradas. A nossa tem 16 por cento de proteína vegetal, que consegue fornecer todos os aminoácidos essenciais que o organismo não produz. A quinoa tem benefícios na prevenção da osteoporose e diabetes, é aconselhada a celíacos, por não conter glúten, e também a desportistas e a vegetarianos pela elevada percentagem de proteína.
Outras variedades
Em 2017, a Quinoa Portuguesa produziu uma nova variedade do pseudocereal, mais doce e clara. No futuro querem introduzir outros produtos no mercado como farinha de quinoa.
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