Daniil Naidenko, de 37 anos , senta-se numa das mesas do seu café e snack-bar e estabelece a cronologia: em 2013, veio pela primeira vez a Portugal, onde o pai morava, e ficou durante uma semana; voltou no ano seguinte e alargou a estadia a três semanas; em 2015, fixou morada no Porto, já com a ideia de criar um negócio próprio na área da restauração, que foi sempre a sua.
Na Ucrânia, geria dois cafés e num deles também era barista. Mas queria mudar, crescer, e o cenário escolhido foi Portugal. Gostava de praticamente tudo cá: a simpatia das pessoas, que lhe pareciam felizes; a natureza, o sol, o mar, o ar fresco da costa, as palmeiras (ficam bem, apesar de não serem nativas, diz); também as distâncias curtas, em comparação com a terra de origem. “Queremos ir às montanhas, é rápido; queremos fugir para Espanha, é uma hora até lá.” Já lá vão quase sete anos desde que abriu a casa que, por parecer tanto uma, se chama Apartamento. “Casa fora de casa” é o lema.
A oferta foi evoluindo ao sabor do que lhe pediam os clientes. Foi graças a eles que passou a servir sopa e a rechear com creme de chocolate e avelãs uns biscoitos que faz, típicos da Ucrânia, que tradicionalmente levam leite condensado cozido.
No início, tinha sócios; depois da pandemia, ficou por sua conta. A oferta foi evoluindo ao sabor do que lhe pediam os clientes. Foi graças a eles que passou a servir sopa e a rechear com creme de chocolate e avelãs uns biscoitos que faz, típicos da Ucrânia, que tradicionalmente levam leite condensado cozido; são em forma de noz, e é isso que significa o nome, gorishok. Ambas as versões coexistem naquele espaço muito virado para o brunch e para o lanche, com bebidas e refeições ligeiras feitas na hora, de que se destacam os crepes e as panquecas.
- Os tradicionais gorishok e os cappuccino com desenhos na espuma. (Fotografias de Pedro Correia/Global Imagens)

O café e snack-bar abriu há quase sete anos.
(Fotografia de Pedro Correia/Global Imagens)
Daniil é da cidade ucraniana de Vinnitsa, onde continuam a tia, os primos e a avó (é a segunda guerra que esta última vive, tem medo, “mas está forte”). Os familiares, que querem ficar lá, “dentro do possível, ainda conseguem fazer a vida normal”, entre falhas de energia e sinais de ataque que obrigam a procurar refúgio. Muitos amigos também se mantêm no país. Só agora consegue distanciar-se um pouco mais, diminuir a exposição às notícias, porque no princípio vivia agarrado ao telemóvel, ansioso por ajudar. Costumava ir à Ucrânia de visita em fevereiro, mas no ano passado teve um impedimento. Mal sabia. “Se fosse, ficava lá.”
Quem veio para Portugal pouco depois de estalar o conflito foi a namorada, Nataliia Ryzhunska, que residia em Sumy. “De manhã, no dia 24 [de fevereiro], disse-lhe para fugir da cidade”, recorda Daniil. Ela reuniu a mãe e o irmão e trataram de abandonar o país, num caos tal que, a determinada altura, acabaram por deixar para trás o carro, como já haviam deixado o resto, e seguir a pé. “Conseguiram fugir, graças a Deus. Passar a fronteira foi muito complicado, por causa das filas. Não dormi durante cinco dias, desde que rebentou a guerra, sempre em stress.”
- Nataliia, Daniil e Nina trabalham no Apartamento. (Fotografias de Pedro Correia/Global Imagens)
Hoje, Nataliia, de 27 anos, sorri timidamente do outro lado do balcão, enquanto outra conterrânea, Nina Popykhach, faz desenhos na espuma dos cappuccino. Nina, de 28 anos, que já leva alguns a trabalhar no Apartamento, garante: “Gosto de estar cá. Não está nos planos voltar para a Ucrânia”. Isto apesar de ter a mãe e um irmão no país natal, que receia visitar agora. “A minha mãe, a cada manhã, manda-me uma mensagem a dizer: está tudo bem connosco.” É com conversas assim, à distância, que vão procurando atenuar as saudades e o aperto no peito.
Vida equilibrada
Aquilo que Daniil mais aprecia em Portugal? “A maneira de viver. Os portugueses sabem trabalhar e também descansar.” Na Ucrânia, diz, há mais correria e stress.
Algo está a fazer com que o sistema não consiga mostrar a ficha ténica desejada. Pedimos desculpa pelo incómodo.
