Quase nada mudou nos últimos 75 anos, mais uma gama sem lactose em 2017, mais um sabor de sal marinho. De resto, mantém-se a receita original com natas, uma pitada de sal, aquela mestria, aquele toque, aquela arte, aqueles segredos. A embalagem de papel continua a ser a opção de embrulho. Tudo natural e tradicional. Os 75 anos da manteiga Primor sã0 celebrados num livro com prefácio do escritor Miguel Esteves Cardoso, texto do crítico gastronómico Fortunato da Câmara, receitas do chef André Lança Cordeiro, fotografias de Kitato. São, no fundo, declarações de amor.
“75 anos. Um elogio à manteiga” abre com uma paixão assumida, construída em casa, passada de geração em geração. Miguel Esteves Cardoso abre o livro. O coração. “É muito difícil escrever sobre manteiga sem começar a chorar. A manteiga está ligada à minha vida – tanto como o lier au beurre está ligado à culinária francesa”, escreve no prefácio, nessa parte do elogio, que batiza a preceito: “Se a manteiga é uma perdição, nunca quero ser encontrado”. Depois, espalha toda essa paixão com recordações à mistura. O pai, sempre em dietas, não dispensava a manteiga, colocava-a no café, no peixe, no peixe frito – enquanto cortava calorias noutras iguarias. A mãe, inglesa, doutorada em “amanteigamento” de pão torrado, era mestre em detetar se era manteiga ou se era margarina nos bolos e cozinhados.
“O meu pai punha manteiga em tudo e especializou-se em explicar porquê, às várias culturas e épocas que se foram atravessando no caminho dele”, escreve. Gostava muito de manteiga e até dizia, em jeito de remate, recorda o escritor, “a manteiga melhora, sobretudo, as coisas que já de si são muito boas. A manteiga melhora as melhores coisas”. Miguel Esteves Cardoso continua lá por casa. “Em minha casa, a manteiga que gastávamos era a Primor. A minha mãe, sempre com saudades da Inglaterra onde nasceu, sentenciava que era a ‘única que podia ser inglesa’. Nós desatávamos a rir”, lembra.

(Fotografia: DR)
Primor no frigorífico, Primor à mesa, desde sempre. “A manteiga é o que acontece quando se vira a nata ao contrário. A vaca faz o leite. O leite concentra a nata. E ao manteigueiro basta agitar a nata para separá-la em manteiga e leitelho. Por isso é que é facílimo fazer manteiga em casa: porque é pura.” “Parece simples, porque é. Mas, como todas as coisas simples, como a água, e como ao ar, e como a vida, presta-se a complicações sem fim”, acrescenta o escritor. Duas sugestões lidas num livro de quem percebe da arte e replicadas nesta obra. “A temperatura ideal para a manteiga é de 18 graus. O tempo mínimo de antecedência para tirá-la do frigorífico é de 15 minutos.” E um conselho: “Quando espalhar a manteiga, não seja violento nem certeiro.”
“A matéria”, uma das quatro partes do livro, está a cargo de Fortunato da Câmara, crítico gastronómico, que recupera este alimento milenar e precioso para a Humanidade no miolo da obra. Fala da história, descreve os atributos sensoriais do alimento. “A manteiga é uma caixa de surpresas, pelo poder versátil do sabor que acrescenta a qualquer prato, pela devoção que muitos povos lhe têm, pela riqueza que representou para alguns países, por continuar a ser um ingrediente de base natural num mundo alimentar com tantos produtos industriais”, adianta.
Os cozinheiros conhecem-lhe as virtudes, a flexibilidade, a generosidade. O chef André Lança Cordeiro não é exceção. A manteiga, confessa, é o seu grande segredo. Por isso, todos os elogios a esse “amplificador de sabor por excelência”. “É a minha grande aliada na busca do equilíbrio perfeito em qualquer receita”, revela no livro, na parte dedicada ao sabor, em que apresenta um receituário com manteiga.
O livro assinala e celebra uma data especial de um alimento que tem lugar cativo nas mesas portuguesas. A marca continua a crescer, segundo Beatriz Andrade Ferreira, gestora da marca Primor. “Estamos certos de que este elogio à manteiga perdurará. Porque a excelência da manteiga nos entusiasma e nos garante no futuro momentos saborosos de partilha, de celebração, de expertise que se quer repetir e manter. A manteiga é um alimento excecional”, sublinha a responsável, em comunicado.
