Oteto e as mesas em madeira escura, a luz quente e indireta, os sofás de veludo e os quadros que eternizam momentos de convívio à mesa, muitos deles com figuras conhecidas das artes e do futebol, conferem uma estética vintage à sala principal de La Trattoria, inaugurado no dia 24 de abril de 1974 e remodelado há 13 anos. Considerado um dos mais antigos restaurantes italianos de Lisboa, tem em Pedro Flores, de 32 anos, um anfitrião de mão-cheia, que nos revela o início do negócio fundado pelo avô João com o empresário Alcide Tarella, um italiano a viver em Madrid.
“Foi lá que o meu avô, natural do Porto, casado com Margarita Flores e com vários negócios na capital espanhola, conheceu Alcide Tarella”, conta Pedro. “Ele geria um restaurante italiano muito frequentado pela alta sociedade e o meu avô desafiou-o a abrir um espaço idêntico em Lisboa, que à época não tinha nenhum restaurante italiano.” Mas a turbulência decorrente da Revolução dos Cravos, que desabrochou no segundo dia de vida desta casa, ditou a ocupação do espaço, que ficou em autogestão, e o sócio italiano retirou-se, “assustado”. Nos anos seguintes foi o braço-direito do avô, Carlos Lourenço, quem ficou a zelar por La Trattoria.

A milanesa de vitela panada com tomate assado e parmesão. (Fotografia de Paulo Alexandrino)

O restaurante foi um dos primeiros italianos e abrir em Lisboa.
Com uma primeira equipa de cozinheiros formada por Tarella, o restaurante abriu também uma pizaria, entre o final da década de 1980 e início da de 90. Portugal sofria ainda com o estertor do protecionismo económico do Estado Novo e em Lisboa não havia onde comprar manjericão. “A minha mãe, Catarina, sempre foi acompanhando a evolução do negócio, e em 2011 reabriu o restaurante com o aspeto atual, pensado em conjunto com a experiência de Pedro Luz, um dos empresários da noite mais conhecidos” da capital portuguesa, contextualiza Pedro Flores, elevando o copo para um brinde.
“Apaixonado por cozinha” e pelo bem receber, o nosso interlocutor tirou o curso de gestão hoteleira e dedica-se há uma década a La Trattoria, com o chef Rodrigo Oliveira na cozinha. “Quase todos os anos viajo em busca de ideias, seja em Londres, onde há muitos bons sítios de comida italiana, seja em Itália, para acompanhar a evolução da cozinha e dos gostos.” A ideia sempre foi manter a qualidade dos ingredientes e receitas tradicionais, ainda que possam ter algumas inovações, como a tosta de pão alentejano e caccio peppe, molho à base de queijo e pimenta.

Lisboa, 17/09/2024
No restaurante La Trattoria, que comemora em 2024 50 anos de funcionamento.
(Paulo Alexandrino)

Pedro Flores dá continuidade à casa fundada pelo avô João.
Novos são também a burrata com nduja (enchido de porco picante) com picle de couve-roxa e crumble de pecorino e rúcula; o ravióli de stracciatella e alho francês com mortadela e pistacho; a tarte de tomate doce e gelado de manjericão; e a torta de ricota e queijo parmesão, as duas últimas nas sobremesas. Dos clássicos, mantêm-se a milanesa de vitela panada com tomate assado e parmesão, as pizas romanas com farinha italiana 00 (com opção sem glúten) e as pastas feitas diariamente. Durante os dias úteis há um buffet de almoço a 17 euros/pessoa muito concorrido.

O La Trattoria celebra este ano cinco décadas de portas abertas.

A tarte de tomate doce e gelado de manjericão é uma das sobremesas da casa.
