Há um charme grande nos lugares estivais quando se instala o inverno. Voltar a eles é como rever memórias, paisagens e companhias do Verão, com a vantagem da quietude, melancolia e paz que não se tem no período da agitação. O Granada, hoje gerido por Ricardo Filipe e fundado pelo seu pai, é um dos pousos de nome internacional como outros da cordilheira ribeirinha que orla a praia e juntamente com a sua mulher, Susana Roxo, criou um polo de atração que transcende o regime das estações do ano.
A proposta culinária surpreende pela ousadia, a sala é irrepreensível pelo conforto e assistência. Filipe chamou a si as artes do acolhimento e serviço, que reparte com Susana, que trata da doçaria; e muito bem, diga-se. Chamaram Eulitério Assunção, jovem de S. Tomé e Príncipe esclarecido nos assuntos da tradição portuguesa e dotado de capacidade técnica invulgar. Acabaram de vencer o exigente concurso Revolta do Bacalhau na categoria de restaurantes, o que em si mesmo denota compromisso com o sabor português.
A refeição corre fluida, ponteada por pequenas grandes surpresas. Começa logo na tábua de queijos e enchidos com nozes e doce (14,90 euros), onde consta o maravilhoso queijo de vaca Flor do Vale. Sinergia bem explorada com a produção local, atitude de resto sensível em toda a oferta deste Granada. Bem tratada a vieira aromatizada (9,50 euros), assessorada por um original puré de ervilhas e coco e redução de cerveja preta. Espírito livre, o do chef Assunção, ainda bem. É aqui que damos com a que cedo percebemos ser assinatura, de montagem de pratos na vertical, pena impedir que se saboreie individualmente cada elemento. Interrogado sobre esse aspeto, o jovem Eulitério disse que é intencional, por isso nada a dizer.
Ficou aquém do brilho demonstrado ao longo de toda a sequência o crocante de farinheira (8 euros), massa filo, mozarela e mel de Montejunto, mas nada que não se resolva porque tem essencialmente a ver com a cozedura prévia do enchido para o rendimento correto de sabor. Glorioso o bacalhau da revolta (18 euros), confitado, puré de chícharo, gema confitada e espuma, o batismo deve-se à vitória acabada de obter no concurso Revolta do Bacalhau. Mas é tudo menos revoltante o sentimento que fica depois de momentos assim bem passados nesta estância de muitas voltas. Aqui é sempre verão. Volta-se pelos petiscos, carnes e peixes não provados. De certa forma, fica-se.
A refeição ideal
Vieira aromatizada (9,50 euros)
Camarão grelhado (15,50 euros)
Bacalhau da revolta (18 euros)
Cheesecake de manga e maracujá (5 euros)
