É preciso recuar até ao ano de 1950 para situar o início da história protagonizada por Humberto II, o último rei de Itália que escolheu Portugal para residir, em exílio, após ser forçado a abdicar dos poderes – mas não do trono -, na sequência de conturbações políticas no seu país. Depois de uma última tentativa de salvar a monarquia, que os italianos decidiram rejeitar em nome da instauração de uma república, governou apenas durante o mês de maio, e em junho mudou-se para Portugal. Em Cascais foi acolhido, com os seus, pela família Pinto Basto, na Villa D’Este.
Humberto II viveu na referida casa cedida pela família portuguesa durante 11 anos (entre 1950 e 1961), até um grupo de monárquicos decidir financiar a construção da residência, mesmo ao lado, num terreno de dois mil metros quadrados, a que o rei deu o nome de Villa Itália. Habitué desde cedo do circuito de luxo do Estoril e de Cascais e movendo-se entre as elites, segundo o hotel “tirou alto partido da indústria hoteleira e de lazer da Linha”, então em franco crescimento. Foi nesses terrenos que, há 17 anos, abriu o cinco estrelas Grande Real Villa Itália Hotel & Spa.
- (Fotografia de Hayley Kelsing)
- (Fotografia de Hayley Kelsing)
Tal como há um século, a paisagem costeira da Boca do Inferno, sobre o oceano atlântico, é o cenário que mais impressiona os hóspedes deste hotel e o principal atrativo do Belvedere, que em português pode ser traduzido como “miradouro”. Existindo desde o início, conheceu vários conceitos até a pandemia ditar um período de suspensão e reabrir em 2023 com novo conceito. “Tornámo-lo mais genuíno, com comida mais simples, assente em clássicos da cozinha italiana com um twist contemporâneo”, explica o chef executivo Luís Sousa, na unidade desde o início.
Também o espaço foi redecorado em tons branco e azul, recebendo uma profusão de plantas de interior que ajudam a criar diferentes recantos, totalizando 38 lugares e uma esplanada no terraço em frente ao mar, convidativa durante o verão. Ainda segundo o chef, a ideia foi honrar os gostos culinários do rei e o que se comia na Casa de Sabóia ao longo do século XX, missão que motivou uma aturada pesquisa de pratos, afinação de receitas e seleção de ingredientes locais e italianos. Alguns pratos têm por isso uma vincada e interessante componente histórica.
- (Fotografia de Hayley Kelsing)
- (Fotografia de Hayley Kelsing)
Alguns exemplos preferidos do rei, aqui referidos como pratos principais, são o agnolotti alla piemontese (massa fina, feita de raiz com farinhas italianas, recheada com carnes mistas e com um caldo quente); o risotto allo zafferano (um arroz cozido em caldo de vinho branco com açafrão, remete para as celebrações da Casa de Saboia durante o Carnaval no século XIX); e a mafalda alla nerano (anéis de massa ondulada com courgette e limão), prato criado para o nascimento da princesa Mafalda de Saboia, filha do rei Vítor Emanuel III de Itália, em 1902.
Elegante e atento ao detalhe, o serviço de sala transporta da cozinha uma série de pratos que vale a pena provar, como as entradas fritto misto (vegetais, peixe e carne envoltos em polme e fritos até ficarem crocantes) e o atum tonnado, uma espécie de tataki com alcaparras, verduras e vinagre de limão. Nos principais, quase dispensa descrições o paccheri al pomodoro – massa coberta com molho de tomate e queijo parmesão -, que a finalização no carrinho junto da mesa ajuda a abrilhantar. Também há risotos, pratos de peixe e de carne, alguns ideais para partilhar.
- (Fotografia: DR)
- (Fotografia: DR)
Envolto em factos históricos do princípio ao fim, o menu do Belvedere termina com sobremesas em três tempos. A cassata siciliana remete para o casamento de Humberto II e Maria José da Bélgica, mas numa versão de camadas de bolo embebido em licor, intercaladas com creme; e tanto o tiramisú como a meringata al limone não lhe ficam atrás. Para acompanhar a refeição, há vinhos transalpinos e cocktails de autor inspirados nos clássicos italianos. Já novidade é a presença de música e voz ao vivo às sextas-feiras e sábados, graças à Lisbon Film Orchestra.
O repertório percorre os clássicos das bandas sonoras de filmes desde os anos 1920 e anima a sala do Belvedere entre as 19h e as 21h30, com várias pausas. Já o duo instrumental é sempre diferente, entre violino, clarinete, guitarra e flauta, ou voz. Esta dinâmica irá manter-se até, pelo menos, ao final deste ano. E ainda que possa não ter contribuído diretamente para o prémio de “melhor hotel para o romance”, na categoria de “Melhores Hotéis da Europa e do Mediterrâneo” da Condé Nast Johansens 2025, ajuda a tornar o ambiente intimista e romântico, entre casais.

(Fotografia: DR)
A própria arquitetura ajuda a transmitir esse “romantismo”, tendo atualizado o traçado clássico da residência. Nos interiores, decorados por Graça Viterbo, destaca-se o uso do mármore azulino. A unidade tem 124 quartos (dos quais 19 suítes e duas penthouses) e é vocacionada para um público maior de 12 anos, de forma a proporcionar um ambiente sereno. Com vista para o mar surge também o La Terrazza Bar, gastrobar para todas as horas, enquanto o Bar Mare dá apoio à piscina exterior (sazonal) e o Navegantes serve os pequenos-almoços.
O Real Spa Therapy é outro dos grandes trunfos do Grande Real Villa Itália Hotel & Spa, tendo mais de mil metros quadrados dedicados ao bem-estar e relaxamento, incluindo ginásio. O circuito de talassoterapia é o espaço mais cobiçado, pois tira partido das propriedades curativas da água do mar quente com zonas como um corredor contra a corrente, jatos de água, hidromassagem, sauna e banho turco. Já o menu de tratamentos e massagens vai desde massagens terapêuticas a rituais personalizáveis e terapias holísticas, individuais ou para dois. Um verdadeiro luxo.
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