Não existe uma definição formal de vinha velha e por isso não é possível estabelecer tabelas de classificação baseadas na sua idade. É fortemente dependente do local e assenta num conjunto de fatores que é impossível sistematizar. É aquilo que nela é diferente que no fundo a caracteriza. O ciclo de vida normal de uma cepa de vitis vinifera – a família natural da vinha tal como a conhecemos – começa com a plantação ou enxertia das varas da casta pretendida. Segue-se um período de cerca de três anos em que os cachos são mondados ainda verdes, para beneficiar o vigor das plantas, findo o qual se considera que a vinha entra em produção.
Entre o quarto e o sexto ano, a vinha está no seu pleno, preparada para as campanhas anuais e que terminam na vindima, e assim será por 30 a 40 anos, altura em que começa a perder o vigor vegetativo e a produzir menos fruta. O sistema radicular – as raízes – já está, contudo estabilizado e se houve sensatez na aplicação de rega, desenvolveu-se na vertical, para o fundo, até encontrar pedra dura e forte. É nesta altura que começa o que pode chamar-se vinha velha. Devia em rigor chamar-se vinha madura, pois a partir deste momento cada cepa adquiriu já o conhecimento do local, a qualidade da fruta, o conteúdo mineral e sobretudo já registou os ciclos de tempo e clima em que se encontra.
Uma vinha velha não precisa de rega, e é autossuficiente do início ao fim da campanha. No Alentejo pode acontecer pelos 30 anos, mas no geral é cerca dos 50 que acontece, se quisermos estabelecer uma média de idades para a vinha velha. No Douro, uma vinha velha tem sempre 60 a 80 anos, ou mais ainda. Na vinha velha da Quinta de Vargellas, no Douro, as cepas têm 80 a 100 anos, por vezes mais até. O vinho do Porto Vintage 2017 produzido por essa terra mágica foi, a propósito, o primeiro vinho a que demos na Evasões a pontuação máxima de 20 valores em 20. Isto está em oposição de fase à lógica do Novo Mundo, em que quando a vinha começa a perder vigor é arrancada e substituída por vinha nova. Privilegia-se a vertente económica, enquanto no Velho Mundo – a que pertencemos – é o aspeto cultural que prevalece.
O aspeto de uma vinha velha reconhece-se à distância pela robustez dos troncos das suas cepas e pela contenção foliar – densidade de parras – que mostra. Além disso, deita cachos geralmente pequenos apesar de bem formados, com o rendimento por cepa abaixo de um quilo, o que aos olhos do mundo é catastrófico e prenúncio de falência. O que há então de fascinante numa vinha velha que nos faz manter vivos o interesse e a paixão pelo que dali sai? Mineralidade, frescura e complexidade. A viagem feita na boca por um vinho proveniente de vinhas velhas é lenta e rica, desdobrando-se em impressões intermédias que podem evocar salinidade, grafite, cogumelos e carvão, dependendo do local.
É sempre uma grande experiência, em qualquer categoria, provar um vinho de vinhas velhas, e há que lhe dar tempo de abrir no copo para lhe perceber todas as nuances. A vinha velha tem também demonstrado que a sua sabedoria resolve naturalmente a tendência para a copiosidade dos bagos, conseguindo conter os açúcares produzidos, resultando ao mesmo tempo em vinhos menos alcoólicos. Não admira por isso que os enólogos lhe reconheçam as mesmas virtudes que nós, consumidores amantes de bons vinhos.
