Os bons vinhos são aqueles a que a crítica, incluindo a nossa, dá geralmente boas notas. Mas os grandes vinhos são matéria bem diferente. Um grande vinho não tem de ter classificações muito elevadas; notas de rusticidade, por exemplo, podem impedi-lo de chegar ao topo da tabela. Mas é sempre uma expressão do terroir – solo e clima, principalmente – donde provém.
Tudo começa no desenvolvimento radicular de cada cepa, é importante que a condução e a assistência continuada levem a que a planta leve as raízes para o fundo até que haja um equilíbrio perfeito entre fruto e maturação fenólica. As vinhas velhas têm-no naturalmente e é por isso que são tão apreciadas pelos enófilos e os enólogos, conseguem o que se chama maior expressão da terra. E é nesse ponto também que a composição do solo começa a falar através das uvas que a cepa produz.
A polpa é pura e inviolável na sua estrutura, no tempo da peste negra o seu sumo direto e mesmo o vinho eram bebidos e não se tocava, por estar inquinada e por ser portadora de doenças. A comunicação entre o sistema radicular, o solo e a planta é que fornece os bagos com o caráter daquele lugar e casta utilizada.
O granito que encontramos nos maciços continentais serranos mais a norte, batidos pelo frio e ventos, emprestam quando mais velhos tonalidades salinas aos vinhos aí produzidos. O Dão é abundante nessas notas e adora a casta branca Encruzado, dando vinhos que além de tonalidades salinas produz impressões diversas de frescura.
O chão duro não impressiona as raízes das cepas mais velhas, muitas vezes até entram nele e vão mais abaixo. O resultado é uma acidez vibrante que torna os vinhos prontos para o corte das gorduras compactas, como é o caso do queijo Serra da Estrela, e para acompanhar pratos de tacho, de cozedura lenta.
A areia é quase o oposto do granito a acidez dos vinhos desce bastante, mas têm um charme muito especial e após o tempo necessário de estágio dão prazer à mesa como nenhum outro. Os solos de areia nunca estão muito longe do mar e a altitude é geralmente baixa. A Península de Setúbal produz vinhos tradicionalmente copiosos, e a relação com a casta Castelão é brilhante.
Um pouco mais para oriente, já bem em cima do oceano Atlântico, damos com um micro-terroir de importância histórica, que é Colares. Ramisco nos tintos, Malvasia de Colares nos brancos, um vinho de Colares pode ter 70 ou 80 anos e estar excelente. A areia, além de ter impedido naturalmente a entrada da filoxera na região, promove taninos maduros e estáveis nos tintos e sensações de fruta confitada nos brancos.
Na prodigiosa Bairrada, os solos são de natureza calcária e argilo-calcária, o que comunica geralmente acidez fixa elevada aos vinhos e taninos finos, indestrutíveis. Não é por acaso que é a região que mais clássicos acrescentou ao nosso património vinícola. A casta Baga (tinta) é a mais representativa, mas algumas castas tradicionais brancas estão a permitir a criação de grandes brancos.
O Douro, conhecido como a ilha de xisto, consegue excelentes maturações das uvas, o que é o suporte natural do vinho do Porto. O xisto tem essa virtude e algumas outras, a mais importante é a capacidade de suportar o stress hídrico. Este fator é muito importante em Portugal, onde o Verão é por regra escaldante. A copiosidade dos tintos nem sempre tem equivalente nos brancos, a acidez dos vinhos de xisto é normalmente mais baixa. O matizado de solos, climas, castas e vinhas é que é a grande força do vinho português, pelo que há que acarinhar cada local e dá-lo sem pejo nem vergonha a provar em todos os círculos.
