Mesmo os carnívoros mais afoitos não dispensam o luxo de um peixe assado no forno de casa, por rudimentar que seja. Há glória na romaria de manhã cedo à peixaria de sempre para resgatar o que comemos com os olhos logo ali, depois transformá-lo segundo as rotinas de sempre, que invariavelmente passam por arrepiar o peixe, temperá-lo ou mariná-lo.
Para quem não tem ideias, corte duas cebolas grandes em rodelas grossas, pique duas cabeças de alho grosseiramente, assente-lhes o bicho em cima, 2 dl de azeite virgem extra e tape com filme de cozinha a travessa funda em que a operação vai acontecer. Pode acrescentar tomate e louro se o assado se pretende à portuguesa, pimentão doce e pimentos quando se busca a variante asturiana. Mais simples é impossível e funciona mesmo com os mais básicos e baratos exemplares – caso da xaputa – apesar de nada chegar a uma dourada, robalo ou pargo do nosso mar e de bitola avantajada.
Tornou-se uma festa eminentemente caseira, já que os restaurantes praticamente deixaram de ter peixe assado no forno, optando pela deprimente versão de peixe de menos de um quilo, obviamente de viveiro. A alimentação é feita à base de farinhas e aditivos, com a consequente perda de qualidade e perturbação de sabor.
Três vinhos que vão bem com peixe assado
Alegremo-nos, contudo que o nosso peixe já está assado e prestes a ir para a mesa. Que tipo de vinho devemos alinhar? Curiosamente, é campo onde temos total liberdade de escolha. Confesso a minha predilecção por vinhos brancos da Beira Interior, com os olhos fixos na maravilhosa e única casta Fonte Cal, mas sei que se trata ainda de uma raridade. Esperemos que os produtores da região plantem mais, que o país peixeiro e marisqueiro precisa, literalmente como de pão para a boca.
Mas nem só de brancos vive o peixe assado. Um tinto pouco extrativo e elegante devidamente refrigerado para cerca de 15ºC pode dar muito prazer também. Isto porque a untuosidade do azeite, o toque da cebola abundante, batatas e condimentos utilizados recebem-no de braços abertos. Há contudo que ter cuidado ao promover o contacto de tintos com peixe de mar, genericamente. Na forma mais directa do peixe cozido, produz-se no palato dimetilamina, a que corresponde o sabor metálico do peixe em estado de decomposição.
No património do peixe assado no forno, contudo corremos menos riscos. Mas haverá no mundo prato de peixe melhor que um pregado assado com alcaparras? Claro que não, e o nirvana está no casamento de um branco com madeira que lhe faça justiça. Brancos poderosos e tintos ligeiros e frescos, ambos devem ter assento na sua garrafeira de Inverno para o prazer de um bom exemplar assado no forno. Há que aferir com o seu próprio gosto, cada um tem o seu jeito de gostar de peixe.
