Crítica de Fernando Melo: dez vinhos para brindar ao verão

Dez vinhos para o verão (Fotografia de Cedric Fauntleroy/Pexels)
Em plena silly season, o ar livre reclama-nos e põe-nos a mesa lá fora, com bom vinho aberto e capaz de nos dar as alegrias que merecemos. Ajuda termos mais tempo para nós e para os outros, por isso vamos puxar pela imaginação e criar momentos únicos.

O tempo pede e a família merece menos regras e mais prazer. Por isso, arrefecemos os néctares da nossa preferência e pomo-los ao serviço de novas artes culinárias, que aproveitamos para aprimorar. E ao mesmo tempo olhamos para o que o mercado nos está a propor, juntando o útil ao agradável. As propostas vão do prático ao luxuoso e começando por esta última ponta, damos-lhe a conhecer um sumptuoso tinto dos vinhos verdes que tem mesmo de provar. Vem de Penafiel e é da casta Vinhão, absolutamente extraordinário. Descemos pelo granito e detemo-nos num belíssimo rosé transmontano de muito boa cepa. Sugerimos-lhe dois rosés durienses de gabarito, daqueles que nos fazem sonhar com o paraíso, a que acrescentamos dois brancos também do Douro, aptos à mesa e à viagem cósmica. Mostramos o primeiro Pai Abel rosé da bairradina Quinta das Bágeiras e petiscamos orientalidades com o novíssimo Viognier da Ode Winery, em Vila Chã de Ourique. E terminamos no Alentejo, com dois brancos muito originais, em jeito de proposta petisqueira de fim de tarde, para prolongar pela noite dentro. Boas provas e sendo o caso, boas férias!

 

Quinta de Monforte Vinhão Grande Reserva
Verdes tinto 2021 (13,5%) | Quinta de Paradella de Monforte. 96 euros
Pontuação: 19
Estamos perante uma das castas mais controversas do país e quando tudo está no seu zénite é uma alegria, mesmo para os maiores detratores do verde tinto. Estamos também em Penafiel, a que o empresário Daniel Rocha entendeu dar glória e brilho por ser a terra que o viu nascer e por ali querer deixar a sua marca. Pisa a pé em lagares de granito, estágio de 12 meses em barricas novas de carvalho francês, seguido de 14 meses em garrafa. É um vinho colossal e ao mesmo tempo apresenta extrema elegância. Trabalho de ourives do enólogo Francisco Gonçalves.

 

Valle Pradinhos
Trás-os-Montes rosé 2023 (12,5%) | Casal Valle Pradinhos. 10 euros
Pontuação: 17
Muitos não se darão conta de que este vinho rosado transmontano resulta da obstinação e paixão pela mineralidade e frescura. Produzido a partir de vinhas autóctones
e altaneiras de Touriga Nacional e Tinta Roriz, representa talento e trabalho aturado ao longo de décadas, declinando obras-primas que o talento do enólogo Rui Cunha vai trazendo a lume. É em si mesmo um caso de estudo o número de vinhos notáveis produzidos neste terroir granítico evocativo das mais severas paisagens lunares. Vai muito bem com salada fria de lingueirão (navalhas).

 

Manoella
Douro rosé 2023 (12,5%) | Wine & Soul. 13 euros
Pontuação: 18
Vinha de Touriga Nacional com 43 anos, 450 metros de altitude. Estágio seis meses sobre as borras finas. Basta atentar na idade desta vinha única para deduzir que o que de lá sai é e será sempre excecional. É um dos mais belos rosés nacionais e também um dos mais eficazes à mesa, sobretudo a um tempo pela mineralidade e pelo sabor. O mesmo é dizer que apresenta um grupo de amargos notável, no qual se inscreve a inspiração salina. Impossível negar liderança a um vinho com estas características, incrivelmente eficaz à mesa. Maravilhoso com pregado grelhado com alcaparras.

 

Casa Amarela
Douro rosé 2023 (12,5%) | Laura Valente Regueiro. 11 euros
Pontuação: 17,5
João Pissarra é o novo diretor técnico desta emblemática casa do Baixo Corgo e os novos vinhos começam a dar-se a conhecer. A base de Touriga Franca é um dos aspetos mais
estruturantes e notáveis da Casa Amarela e o enólogo não só quis respeitar isso como foi mais adiante, libertando-a do óbvio e da fruta primária e copiosa de que por vezes padecia. Este rosé é uma ode à virilidade e à estrutura, assente numa acidez bem trabalhada e capaz de grande arco aromático. Dá-se ao petisco e entrega-se a um cabrito assado com grande sucesso.

 

Casa Velha Samarrinho
Douro branco 2023 (13%) | Adega Cooperativa de Favaios. 11,5 euros
Pontuação: 17
A linha Casa Velha da Adega de Favaios representa ponto de honra e esforço da que é uma das mais bem-sucedidas adegas cooperativas de Portugal. Este monocasta de Samarrinho é um dos poucos exemplares disponíveis da casta no seu resplendor de intenção e técnica, entregue a uma equipa
conhecedora e experimentada, liderada por Miguel Ferreira. Fermentação e estágio inox seis meses, uvas provenientes de vinha a 600 metros de altitude. Grande complexidade aromática, excelente aptidão gastronómica. Brilhante com bacalhau gratinado no forno.

 

 

Bota Velha Field Blend Reserva
Douro branco 2023 (13%) | iVin. 14,50 euros
Pontuação: 17,5
A amizade entre Miguel Grijó e João Silva e Sousa já conta vários anos e o entendimento entre o empresário e o enólogo tem vindo a concentrar-se em projetos específicos e de grande gabarito. O Bota Velha é uma das mais recentes expressões dessa relação. Este vinho branco é produzido a partir de uma vinha velha, uvas cuidadosamente vinificadas com especial cautela para evitar sobre-extração, batonnage periódica para garantir complexidade. O resultado está bem patente neste novo membro da família. Muito bom com peixe grelhado na brasa.

 

Pai Abel
Bairrada rosé 2022 (13%) | Quinta das Bágeiras. 40 euros
Pontuação: 18
Ainda está bem vivo o evento que há poucas semanas teve lugar na Quinta das Bágeiras, intitulado “Vigneron, as nossas uvas, os nossos vinhos”. Marcaram presença 15 produtores de todo o país, dando formalmente início a um movimento que se adivinha imparável. Mário Sérgio Nuno e seu filho Frederico estão fortes na convicção de que a agricultura pode e deve ser plataforma de crescimento e impulsionamento, desde que se garanta justeza e justiça na abordagem. Este rosé foi lançado na mesma altura, é produzido a partir da casta Baga e vai muito bem com leitão assado. À Bairrada, pois claro.

 

ODE Viognier
Tejo branco 2023 (12,5%) | ODE. 17 euros
Pontuação: 17
Não teve qualquer contacto com a madeira e mostra a complexidade característica da casta Viognier sem excessos. Cinco meses em contacto com as borras finas foram suficientes para afinar este vinho de bom gabarito, mão enológica de Maria Vicente. É a segunda edição deste vinho na casa e mostra-se ligeiramente terpénico, evocativo de pêssego maduro, mas não é por isso que deixa de agradar aos fãs da casta. O comportamento à mesa é muito bom com sushi e sashimi ou com uma boa sopa ramen. Comportamento muito interessante também com gelados.

 

Herdade Aldeia de Cima Reserva
Alentejo branco 2022 (13,5%) | Herdade Aldeia de Cima. 17,50 euros
Pontuação: 18
O produtor pertence ao universo Amorim e os resultados neste reduto da serra do Mendro, no Baixo Alentejo, têm sido surpreendentes. Além do trabalho na paisagem, com configurações inéditas de vinha nestas latitudes, há todo um trabalho de adega que é notável. Este é um dos mais recentes títulos e já ganhou o seu lugar entre os amantes do vinho alentejano autêntico e direto. Um ensopado de borrego é um dos pratos com que vai muito bem, ou mesmo um cozido de grão com hortelã. Impossível dizer não a uma autêntica sopa de tomate com todos, no final de uma tarde de canícula.

 

Ervideira Invisível Aragonês
Alentejo branco 2023 (13%) | Ervideira. 14 euros
Pontuação: 17,5
O tempo passa depressa. Parece que foi ontem o lançamento desta ideia de Duarte Leal da Costa e já vai na 15.ª edição. Trata-se de um dos mais bem sucedidos brancos de uvas tintas produzidos no nosso país
e o inimaginável aconteceu: o vinho é um dos favoritos da Ervideira e tem muito futuro pela frente. Temos outros casos de blancs de noirs no país mas nenhum tem tanta saída como este. Curiosamente, o desempenho à mesa é notável, brilhando com caldeiradas, tripas e pratos diversos de bacalhau. Funciona muito bem com petiscos de mão, como torresmos do rissol.



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