Temos razões para nos alegrarmos. Após as festas, entramos em janeiro com o pé direito e isso pode ser prenúncio de um ano de 2025 em cheio. O giro pelas casas vínicas é igualmente alegre. Começa num branco de enorme talante da região de Portalegre, pela mão do grande criador João Afonso. Damos um salto ao Dão para revelar um Jaen brilhante, produzido pela mão segura de Sónia Martins. Do Douro e no Alentejo, provámos dois vinhos a que não pudemos senão dar a nota máxima de 20 valores, o que deixa qualquer provador muito feliz. Descobrimos um novo produtor na sempre promissora região da Beira Interior, de que damos conta de um belíssimo branco de Síria. Mais a Norte, no Douro clássico, provámos um branco novidade, o primeiro Reserva branco da Quinta do Noval. E a mesma descoberta fizemos na também duriense Quinta Alta. Entre os dois, intercalámos com um Alicante Bouschet do Baixo Alentejo que nos ficou na memória. E terminamos a ronda com mais dois grandes vinhos alentejanos. Desejamos a todos um ano vínico muito feliz.
Vira-Cabeças
Alentejo branco 2023 (12,5%) | Cabeças do Reguengo. 17 euros
Pontuação*: 18
Uvas provenientes de quatro terroirs diferentes – Covões 2 e 3, Carvoeiro e Tapadinha -, vinificadas em regime de field blend. Trata-se de vinhas velhas, com a consequente e expectável mistura de castas. João Afonso é um vigneron notável e tudo sai da sua lavra, este vinho impressiona muito pela fluidez e rendimento de sabor muito especiais. Fermentação natural e estágio de nove meses em tonéis de carvalho esloveno e barricas de carvalho francês. Um terço do vinho fermentou e estagiou em barricas de tinto, com maloláctica. Branco genial, que apetece guardar por dez anos.

Pedra Cancela Jaen
Dão tinto 2021 (12,5%) | Lusovini. 19 euros
Pontuação*: 17
A casta Jaen povoa a maioria dos vinhedos do Dão, e por isso é estruturante. Ao mesmo tempo, quando se exprime com esta elegância, temos acesso ao perfil clássico que seduziu ao longo de décadas os felizes proprietários de vinhas de maravilhosos solos de granitos duros que deram origem a vinhos de grande classe. Este belo Jaen tem a mão sábia e conhecedora da enóloga Sónia Martins, também gestora da Lusovini. Aromas de vagens de ervilha, sardinheira e romã, na boca mostra-se fino e pouco extrativo, para terminar em sugestões de bagas de arbusto.

Quinta do Crasto Vinha da Ponte
Douro tinto 2019 (14,5%) | Quinta do Crasto. 260 euros
Pontuação*: 20
Quando se entra na propriedade vinhateira da quinta, encontram-se quase lado a lado as vinhas da Ponte e Maria Teresa, plenas de personalidade e até apresentação visual distinta. Na primeira, temos austeridade e longevidade, enquanto na segunda o que nos espera é copiosidade e muito prazer. A Vinha da Ponte desperta sempre em mim curiosidade pelas notas salinas e frescas características das vinhas velhas. O magnífico exemplar deste ano único vai mais além, revelando um património mineral de trufas e grafite que surge associado a uma concentração invulgar. Um vinho histórico.

Pêra-Manca
Alentejo tinto 2018 (15,5%) | Fundação Eugénio de Almeida. 450 euros
Pontuação*: 20
Estamos perante um vinho de gabarito com uvas de Aragonês (55%) e Trincadeira (45%) de vinhas proprietárias instaladas em solos graníticos. Só se produz em anos muito especiais, quando a prodigiosa equipa magistralmente encabeçada por Pedro Baptista entende estarem reunidas as condições para chegar ao perfil clássico que o mundo festeja sempre com muita alegria, especialmente o mundo da lusofonia. Estágio longo em tonéis de carvalho francês. Tem tanto de austero e tânico como de elegância e copiosidade, e na prova é pura sedução. Merece estar no coração e cave de cada português.

Quinta da Ribeira da Pêga Síria
Beira Interior branco 2021 (13%) | Casa Agrícola Metello de Nápoles. 11,50 euros
Pontuação*: 17
A região da Beira Interior tem muitos encantos e charme e está a crescer, revelando vinhos com personalidade e específicos dos terroirs altaneiros que lhes estão na origem. Estou sempre atento aos vinhos brancos que vai produzindo, sendo que os tintos estão já num patamar superlativo. Aconselho os poucos que ainda não conhecem as castas brancas Síria e Fonte Cal que se aproximem e provem, para aquilatar devidamente o seu potencial. Este vinho é estreme de Síria e provém da região de Pinhel. Assinala o nascimento de uma nova marca que é absolutamente essencial conhecer.

Cedro do Noval Reserva
Douro branco 2023 (13,5%) | Quinta do Noval. 27 euros
Pontuação*: 18
A Quinta do Noval dispensa apresentações e quem passa por ela nunca mais esquece. O talhão Nacional tem-nos dado vinhos do Porto gloriosos e as vinhas de toda a propriedade são bem distintivas, exemplarmente conservadas. Os vinhos Douro têm sabido manter-se à altura do desafio que é ter títulos históricos de vinhos do Porto e de vez em quando fico surpreendido com o muito que têm ainda para dar. Este branco é o primeiro Reserva e é feito a partir de Viosinho (65%) e Gouveio (35%). Estagiou em inox (65%) e barricas de carvalho francês. Excelente trabalho de Carlos Agrellos.

Menino António
Alentejo tinto 2021 (15%) | Malhadinha Nova. 95 euros
Pontuação*: 18,5
Vem de Albernoa este “menino” produzido em estreme a partir da casta Alicante Bouschet. Fermentação em lagar, com várias pisas a pé ao longo do processo. Estagiou 24 meses em barricas de carvalho francês. Este vinho vai na quarta edição e a mais recente foi já em 2014, o que diz bem da exigência de qualidade que o produtor insiste em preservar. Taninos muito finos, cor carregada e aromas de caruma verde e ameixa madura. Na boca, apresenta-se com extrema elegância. Aconselho a decantação e a prova com tempo para chegar ao zénite do sabor.

Qalt Reserva
Douro branco 2022 (13%) | Quinta Alta. 23 euros
Pontuação*: 17
A dupla Fernanda Zuccaro e Nuno Mouronho decidiu em boa hora lançar o seu primeiro Reserva branco e pelos vistos fizeram muito bem. Produzido a partir de Gouveio Real (80%) e Viosinho (20%), estagiou em barricas novas de 550L de carvalho francês, com batonnage semanal. A ligação ao enólogo Francisco Montenegro faz de cada vinho uma festa de grande harmonia. Cítrico na entrada de boca, depressa evolui para impressões minerais que acrescentam à já grande sensação de frescura. Acompanhou na perfeição um pregado grelhado com alcaparras.

Terrenus Vinhas Velhas Reserva
Alentejo tinto 2019 (15%) | Rui Reguinga. 40 euros
Pontuação*: 18,5
Rui Reguinga continua a explorar a Serra de São Mamede e a dar-nos grandes alegrias com as suas incríveis criações. Foram muitos os que lhe seguiram as pisadas, como sabemos, mas é a ele que devo a primeira incursão a uma vinha velha daquela região. O frio e o vento eram tão violentos que eu cheguei a temer pelo projeto, mas o genial enólogo sabe muito bem o que faz e domina o seu ofício como ninguém. Field blend a 700 metros, estágio de 18 meses em barrica e 24 meses em garrafa. Trabalho notável de afinação, taninos muito finos e sugestões salinas a acompanhar as impressões terrosas do vinho.

Monte Branco XX Anos
Alentejo tinto N/V (13,5%) | Adega do Monte Branco. 95 euros
Pontuação*: 19
Luís Louro tem aqui um verdadeiro vinho de celebração. Produzido a partir de Alicante Bouschet de 2017 (75%) com fermentação em lagar e pisa a pé. Trincadeira de 2018, 2019 e 2020. Ao todo, o vinho estagiou quatro anos. Acidez impressionante, corpo muito bem construído em foudre de base Alicante Bouschet que paulatinamente foi acrescentado de Trincadeira, numa abordagem francamente original. Incrivelmente suave na boca, grande complexidade e aptidão gastronómica notável. Merece uma galinhola estufada à portuguesa.

(*Pontuação de 1 a 20)
