
Vale do Ninho Nature Houses (Ferraria de São João). (Maria João Gala/Global Imagens)
Numa mancha verde a perder de vista, entrecortada pelo IC8, as placas vão anunciando o verão. A natureza encarregou-se de fazer renascer a cor fresca (mesmo que isso nem sempre seja bom, especialmente quando se trata de um extenso manto de eucaliptal), sem deixar sinais dos tons cinzentos que o fogo ali cravou, há quatro anos. No sentido sul-norte, depois do túnel que há quase três décadas rasgou a serra e permitiu a ligação a Castelo Branco, a paisagem conseguiu renascer das cinzas e abrir espaço para quem ficou e se mantém de braços abertos à espera dos que chegam, para conhecer o verdadeiro Pinhal Interior Norte, que liga as serras da Sicó e da Lousã. Que por esta altura revela, amiúde, uma e outra praia fluvial, ou tão só um rio para contemplar, quando o desejo não for o de navegar.
Foi pela intensa floresta que o pintor José Malhoa se apaixonou, ainda no século XIX. O que diria agora da recuperação exímia do CASAL DE S. SIMÃO, aldeia de xisto preservada ao pormenor, em cada uma das cerca de 20 casas? Nos campos já não há raparigas formosas como Clara, que pintou em 1903. Mas chegaram outras e outros, nos últimos anos, consolidando por ali uma das maiores comunidades migrantes da região centro. Foram comprando as casas velhas e recuperando parte das aldeias, rendidos à mesma ruralidade que Malhoa retratava – e que pode ser visitada até outubro na exposição Os Caminhos do Naturalismo, no MUSEU E CENTRO DE ARTES DE FIGUEIRÓ DOS VINHOS. É aí que começa a nossa viagem, acompanhada de outros nomes grandes da pintura como Henrique Pinto, Dordio Gomes, Carlos Reis, Abel Manta; e ainda a escultura de Simões de Almeida.

Passadiços das Fragas de São Simão (Maria João Gala/Global Imagens)
Marta Brás, vereadora da Cultura de Figueiró dos Vinhos, sabe bem da riqueza que ali tem. É ela quem conta à Evasões o destino atribulado que já marcou a existência do Casulo (casa do pintor José Malhoa), antes de chegar às mãos da Câmara e se tornar património municipal – e nacional. Lá dentro, há uma sala que vale a visita, só por si. É como se o “grupo do Leão” ainda ali discutisse o país e o mundo, em grandes serões de província. De certa maneira, o que acontece na vila entre 14 e 22 de agosto consegue homenagear esse tempo, também este que vivemos, deixando nos murais tudo o que um festival de arte urbana consegue vincar. Chama-se “Fazunchar” e está a tornar-se um caso sério nesse universo, prolongando a arte que ali começou o “pintor consagrado que foi bem grande e nos fez já ser do passado” – como cantava Amália, numa composição de Frederico Valério e José Galhardo.
À volta de Figueiró dos Vinhos, a ribeira de Alge – que caminha para o rio Zêzere – abre espaço para várias praias fluviais. Elegemos a das FRAGAS DE S. SIMÃO, que desde há um ano ganhou passadiços de madeira. E esse foi um passo de gigante para o turismo da região, como sustenta Marta Brás. Lá em cima fica o Casal de São Simão, aldeia de xisto.
Uma varanda com vista para a aldeia
Xista, a gata da aldeia, aparece sempre entre as casas a surpreender vizinhos. “Só três delas é que são habitadas permanentemente”, conta à Evasões Renato Antunes, proprietário do restaurante VARANDA DO CASAL, que ali conta uma história já com 12 anos. Com a ajuda do chef Hugo Tarrafa, a equipa surpreende quem só vai à espera de comida tradicional portuguesa. É verdade que ainda há quem não prescinda do cabrito assado ou da chanfana, mas a carta sazonal e a criatividade que vem da cozinha seduzem até os mais céticos.
Por ora, o sucesso cabe ao bacalhau com crosta de cogumelos e rebentos de salsa, devidamente acompanhado de couve salteada e salpicada de amêndoas. Ou então ao naco de lombinho de javali. “Fazemos praticamente tudo aqui, desde o pão às manteigas”, revela Renato, que quando rumou a Lisboa para estudar ciências da comunicação não pensava regressar à terra, tão pouco gerir um restaurante, e sobretudo “gostar tanto do que faço”. Trabalhava na banca quando a doença do pai o fez voltar. Quando o perderam, ele e a mãe continuaram a alimentar o melhor da gastronomia da região.
A família fizera caminho na restauração de Figueiró dos Vinhos, mas foi preciso subir ao monte para se tornar uma referência na gastronomia. A sala é luminosa, toda ela envidraçada, e há um terraço precioso sobre o largo da aldeia. Ali sabe ainda melhor o crumble de maçã de Alcobaça, o pudim de São Bernardo, ou a pera bêbada com jeropiga e açafrão. Nos quintais, talvez haja louro, salsa e cidreira.
Entre montes e um Vale
Demoramos menos de 10 minutos para chegar à aldeia da Ferraria de São João – que ficou conhecida por causa do plano próprio de defesa contra incêndios, o qual inclui árvores autóctones como escudo protetor, em vez de pinheiro e eucalipto. É ali que fica o VALE DO NINHO NATURE HOUSES. Pedro Pedrosa e Sofia Sampaio mudaram-se há 10 anos para a aldeia, num ímpeto de mudar de vida. “Os nossos filhos já nasceram aqui.
Antes deles nascerem chegámos a receber hospedes em nossa casa porque sempre foi uma atividade que gostámos de ter, receber e mostrar este cantinho. Com a previsão de nascimento deles avançámos para a recuperação de 3 palheiros em ruínas, anexos à casa, e criámos as [três] casas do Vale do Ninho”. São estúdios unifamiliares com capacidade para três a cinco pessoas, “muito focadas na natureza que as rodeia e na construção com arquitetura simples e funcional, com muitos materiais naturais e eco-eficientes”, conta Pedro. Os hóspedes partilham uma piscina biológica no jardim, ao lado de um vasto espaço exterior com baloiços, trampolim, animais, uma horta biológica e até um forno.
Além disso, o Vale do Ninho assume-se como uma unidade “bike-friendly”, preparada para receber bem que anda de bicicleta. Por isso disponibiliza percursos, bem como todos os tipos e tamanhos de bicicletas. Além disso, é igualmente um espaço amigo dos animais.
Passear pelo Zêzere
É na mesma ribeira de Alge, mas já na Foz, que os primos Vítor Gomes e Sara Batista se dedicam de corpo e alma ao complexo que integra o PARQUE DE CAMPISMO, o restaurante e as diversas atividades ligadas aos desportos náuticos. Nasceram ambos ali, na aldeia, e ao cabo de vários anos longe da terra, regressaram para mudar o rumo do que poderia ser apenas um parque de campismo. Mas não é. Há uma legião de amigos que se forjou ali, desde 2015, e que está sempre pronta a alargar-se, à dimensão do Zêzere que se agiganta.
É por esse rio acima que Vítor assume o papel de comandante nos passeios de barco, entre a Foz de Alge e Dornes, já no vizinho concelho de Ferreira do Zêzere, distrito de Santarém. A viagem dura pouco mais que uma hora, e é perfeita para apreciar a imensidão das águas, a floresta que se ergue nas margens, as aves que servem de companhia aos visitantes. Também se pode optar pela canoagem (livre ou em grupo), slide, paintball, entre outros.
No regresso, há um saboroso achigã frito para saborear. Todo o peixe é pescado ali no rio, para regalo dos apreciadores. Ao lado da esplanada do restaurante, há quem prefira grelhar o seu próprio peixe, no parque. Também ali há um forno comunitário. Na verdade, antes da pandemia, tudo era feito de partilha por ali. Vítor recua ao ano de 2019 para o recordar como “o pico do crescimento, em que atingimos as 98.000 entradas”. Aos poucos, os campistas foram voltando, e muitos chegaram de novo. Ali o leque abre-se a bungalows, caravanas ou tendas. De modo que o último agosto (2020) foi o melhor de sempre.
Um bar junto ao Cabril
Numa região há muito marcada pelo êxodo rural em direção a Lisboa, sobram segundas habitações (algumas transformadas em alojamento local) e faltam hotéis. Não é por isso de estranhar que, mais adiante, na albufeira da barragem do Cabril, em Pedrógão Grande, outro parque de campismo seja opção para os visitantes. Com o crescimento do turismo em torno da EN2, que atravessa o concelho, foi ainda maior a procura. Mas a grande sensação deste verão chama-se DOCK CABRIL, um bar que acaba de abrir as portas. Na verdade, todos os dias se abre e fecha, já que é feito de módulos: barraquinhas de madeira que encaixam no contentor de um camião.

Dock Bar, Albufeira do Cabril. (Maria João Gala/Global Imagens)
Nuno Fernandes sonhou-o com a família. Apesar de residir em Cascais, é ali que tem as raízes. E a pandemia teve o condão de o fazer regressar mais vezes, já que enquanto consultor e gestor pôde dar-se ao luxo de trabalhar a partir daquele lugar, quase mágico. E a ideia do bar foi ganhando forma. “Não é um bar de massas”, reconhece Nuno Fernandes, que colocou todo o cuidado nos pormenores. O mote do Dock Cabril é “celebrar amizades”, de preferência em torno de um pastel do Cabril (uma inusitada reinvenção do tortulho ou bucho recheado) e algumas refeições rápidas, sempre com opções vegetarianas.
Numa das barraquinhas, “esconde-se” Madalena, a filha mais velha. Tem apenas 13 anos e é detentora de uma marca de acessórios e bijuteria. É ela que desenha e costura as peças, e que desde o início de agosto tem ali uma loja aberta ao público, qual caixinhas de surpresas.
De regresso à vila, há uma novidade boa para saborear em pleno Jardim da Devesa: uma HAMBURGUERIA onde o difícil é escolher. Hamburguer ou bife? Carne mirandesa ou maturada galega? As combinações são sempre de outra dimensão, como de resto acontece com as sobremesas. Era essa a ideia de Sebastian Petcas e da mulher, Cecília. Para já, têm conseguido. O espaço beneficia da esplanada para o admirável jardim, que numa noite de verão engana bem qualquer laivo de envelhecimento ou desertificação, tal é a lotação e a juventude. De resto, é dessa vida que se alimenta também um dos complexos de piscinas mais ousado do país, ali bem perto: a PRAIA DAS ROCAS, em Castanheira de Pera, que granjeia adeptos das ondas artificiais. Longe dos tempos de sobrelotação, desde o ano passado que tem vindo a adaptar-se à era pandémica, pelo que as muitas famílias que a procuram encontram agora outra tranquilidade. Porque isto de ter ondas a 80 km do mar, não é (mesmo) para todos.

Praia das Rocas. (Maria João Gala/Global Imagens)
Uma casa no campo
Maria João Esquetim e Fernando Pereira recebem cada hóspede como se fossem amigos de casa. Deixaram Lisboa em 2015 e mudaram-se para a ALDEIA DO CAMELO, em Castanheira de Pera. “O meu pai era daqui. E chegámos a uma fase da vida em que precisávamos desta paz, deste sossego”, conta ela, que deixou o emprego numa escola para se dedicar ao turismo rural. Fernando é designer gráfico, e isso explica muita da beleza que imprimiu em pormenores da decoração, que casam bem com os bordados de Maria João. Tudo isso está espelhado nas quatro casas de campo, com nomes próprios: Forno, Torre, Ribeira e Laranjeira, que alojam de duas a oito pessoas.

Camelo Casas de Campo. (Maria João Gala/Global Imagens)
O casal empenhou-se em recuperar, afinal, uma aldeia que estava quase abandonada. Hoje são oito os habitantes, e ainda uma criança, com 12 anos. “O nosso projeto sempre passou por dar tempo ao tempo, pela sustentabilidade social”, conta Fernando, enquanto ajuda a colher amoras e framboesas. No exterior há árvores de fruto, mas também carvalhos, castanheiros, medronheiros e toda a espécie autóctone que serve de barreira protetora. Lá em baixo, duas ribeiras juntam-se. Tomar o pequeno-almoço no terraço, ao lado da piscina, e ouvir apenas os pássaros, é um privilégio. Depois há a sala azul, onde é possível fazer reiki, meditação, concertos de taças tibetanas.
A partir de setembro começa uma das fases mais belas da aldeia, quando se assiste à brama dos veados. De resto, andam sempre à espreita.
