Ribeirinha e rural, piscatória e urbana, a freguesia da Trafaria (concelho de Almada) não se afigura, à partida, como um destino turístico – mas guarda um passado que merece ser contado e (re)descoberto. Em março de 2020, com as agências de turismo paradas devido à pandemia, o guia-intérprete oficial Nuno Oliveira predispôs-se a olhar com curiosidade e um ângulo historiográfico para a área metropolitana de Lisboa, e foi assim que nasceu a ideia de lançar a Lost in Lisbon Tours, com tours e caminhadas históricas desenhadas para o mercado português.
“Eu morava em Oeiras, depois mudei-me para a Costa da Caparica e confesso que pensava que não havia nada [de interesse nesta zona]”, conta, enquanto guia um pequeno grupo pelas praças, becos e ruelas da Trafaria, antes de subir a antigas baterias miliares e à arriba fóssil. Elevada a vila em 1985, a Trafaria mantém o ar de aldeia piscatória com muitos restaurantes de peixe e embarcações fundeadas numa pequena praia, enquanto convive com um porto industrial e com bairros desfavorecidos como o Torrão e a Cova do Vapor. O percurso é um dos 20 tours criados por Nuno Oliveira e cujas datas vão sendo anunciadas nas redes sociais.
Forte de Nossa Senhora da Saúde
Há várias teorias que explicam a origem do nome Trafaria. Uma delas defende que poderá ser a junção do termo árabe “traf” (que significa ponto ou cabo) com o latino “arena” (areia), logo, “Trafarena”. A população só começou a fixar-se a partir do século XVI, depois de o Cardeal D. Henrique mandar construir um lazareto para as pessoas e mercadorias que chegavam por via marítima permanecerem em quarentena, durante a época da peste. O edifício acolheu depois a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, foi transformado em forte, chegou a ser fábrica de guano de
peixe e já no século XX foi presídio. Atualmente está em obras.
O Forte de Nossa Senhora da Saúde. (Fotografia de Leonardo Negrão/GI)
Centro histórico
O momento mais marcante da Trafaria deu-se em 1777, quando Marquês de Pombal ordenou a Pina Manique que incendiasse a povoação, por albergar centenas de rapazes que fugiam da guerra. Reconstruída, a Trafaria passou a
acolher fábricas de dinamite e de conservas de peixe. No final do século XX a burguesia da capital começou a frequentá-la para ir a banhos e em 1901 a rainha D. Amélia inaugurou-a como a primeira estância balnear do país, motivando a construção de chalés (alguns ainda visíveis), casino, salão de baile e outros locais de entretenimento.
O centro histórico da Trafaria está repleto de casas de pescadores. (Fotografia de Leonardo Negrão/GI)
Baterias da Raposeira e Alpena
Nas imediações da Trafaria encontram-se duas baterias militares abandonadas. A 5.ª Bateria de Costa da Raposeira foi desocupada na década de 1980 e oferece uma vista panorâmica sobre a vila, Lisboa e a foz do Tejo, lado a lado com antigos canhões de artilharia de design alemão. Também degradada surge a bateria da Alpena, integrada no antigo Regimento de Artilharia de Costa, muito usada como campo de jogos de paintball. Caminhando pela arriba fóssil tem-se uma vista panorâmica sobre a mata e, à esquerda, sobre toda a Costa da Caparica.
O percurso passa por duas baterias miliares desativadas. (Fotografia de Leonardo Negrão/GI)
Tome nota dos próximos tours e caminhadas:
Novembro
Dia 20 – Novos Bairros da Época Dourada – Visita Bairro Alto – 10 horas
Dia 28 – Caminhada com História – Trafaria – 09 horas
Dezembro
Dia 1 – Palácio da Ajuda + Tapada da Ajuda – 09.45 horas
Dia 4 – Mini caminhada – Cidade de Setúbal e Fortes – 09 horas
Dia 5 – Caminhada – 7 Aquedutos mataram a sede a Lisboa – 09h
Dia 08 – Ricos, Ossos e Escândalos – Visita temática – 09 horas
Dia 12 – Colina Abaixo! – Visita Bairro Ajuda – 09 horas
Dia 30 – Um tour do Piorio às escuras! – Visita Industrial – 20 horas